quinta-feira, fevereiro 03, 2005

Amor-rolimã

De Xico Sá

"Só há um tipo de amor que vale a pena: o amor-rolimã, ou amorolimã, amorrolimã, decidam aí a grafia enquanto eu me despradonizo todo na tentativa da boutade perfeita. O amor que deixa os joelhos e os cotovelos à mercê de merthiolate e dor. Calçada de cimento tosco, calçada em areia grossa, calçada em concreto ou em pedrinhas de brilhante para quando o meu amor passar.

Sair de um amor é deixar de brincar de rolimã. Pena que agora não dê mais pra pedir penico às nossas mães – embora o buraco-mor d'alma ainda venha delas. Mas a dor agora também é só nossa, só dividimos com o Édipo ao longe, platônico, meu Deus, perdido na poeira dos gregos e caetés.

O amor rolimã é todo escoriações, sanguinho novo e vivo a escorrer, sangue que desce pela perna, joelho, batata, pé, e lá embaixo escreve o nome da desalmada em garrafais. O amor rolimã é sempre ladeira abaixo, rolamento oleado, viagem vertical, japão da dor.

Desvios nas calçadas, nonada, asfalto quente, cair de boca, beijar como o papa o chão dos estrangeiros d'alma. Perder os dentes ali mesmo, numa manobra orgulhosa, narciso precoce de todas as quedas. Mercúrio cromo, dor mais vermelha, será física ou será daquelas?

Dói aqui, ó, pontada no estômago, como um boxeur que adivinha o golpe, que prescreve a corda e a coreografia do nocaute. Amor de rolimã é que é amor, amor-rolimã dói demais.

Calçada ladeira abaixo, cair de boca, cair de peito, rasgar as vestes e a capa mentirosa do que tiver mais próximo. Faísca nas rodinhas, como golpe de samurai, os rolamentos na pista, o incêndio das horas, a descida mais assassina, sai do meio, lá vai, lá vamos, lá vai, fodeu, até quando?"

Vivi isso uma vez. E viveria tudo de novo. Com dor, escoriações, velocidade. Viveria na mesma intensidade. Mesmo sabendo que a ladeira mais machuca do que cura.

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